O crime do marca texto

Desde que aprendi a ler, desenvolvi um caso de amor com os livros. Claro, inicialmente, eram aqueles livros infantis, mas me sentia particularmente atraída por aqueles que pareciam se de "gente grande", ou seja, eram maiores e não tinham ilustrações. Conforme fui crescendo, fui encontrando nos livros que lia minha principal companhia. Chegou um tempo em que livro nenhum era grande o suficiente para me entreter e, com certeza, eu não conseguia comprar livros na mesma velocidade que os lia. Nem preciso dizer como amava visitar livrarias, né? Na época, era a melhor forma de conhecer as novidades e a melhor parte, eu podia tocar os livros, sentir a textura das capas e das folhas, sentir o cheiro da impressão… Aliás, gosto disso até hoje, e acho que meu ritual de leitura começa por esses outros sentidos, e não se restringe a visão. Foi - e ainda é - através dos livros que aprendi grande parte do que sei hoje, e posso dizer que gosto de uma grande variedade de assuntos: romances (românticos, fantasia, policial), técnicos, desenvolvimento pessoal, espiritualistas e qualquer assunto que desperte meu interesse. Acho que não é difícil de perceber que me tornei uma leitora um tanto quanto neurótica também, não é? Lembro-me quando ganhei o box de quatro livros de "As Brumas de Avalon", da Marion Zimmer Bradley. É uma edição do extinto Círculo do Livro, com capa dura e sobrecapa. Nessa época ia e voltava da escola usando ônibus e metrô, e tinha o péssimo hábito de ler nesse trajeto (esse hábito me rendeu vários graus de miopia que precisei operar mais tarde). Eu queria muito aproveitar esse tempo para ler meus novos livros, é claro! Mas tinha medo de estragar os exemplares colocando-os na mochila. Assim, pedi para minha mãe fazer uma capa de tecido, que fosse acolchoada (?!?!?!?!), para eu colocar nos livros. E finalmente, pude ler minha coleção sem estragar nada. Também nunca marquei uma página dobrando-a, ou risquei ou escrevi em livros, mesmo os técnicos ou de estudo (só aqueles de escola que a gente tinha que escrever e, mesmo assim, usava lápis, como se isso fosse um crime menor). Essa minha paranóia com livros se manifestou também uma vez que um amigo me pediu emprestado (alerta de terror!) "O Alquimista", do Paulo Coelho. Entrei em pânico só de imaginar o livro em outras mãos, e inventei uma mentira para não emprestar. Afinal, era melhor mentir descaradamente a emprestar um dos meu livros do Paulo Coelho! Ou qualquer outro que eu gostasse muito. Isso tudo para dizer que eu fazia parte daquele grupo de pessoas que considera "crime" maltratar um livro, e tem um apego danado com eles, como se tivessem vida própria. E agia de acordo com essa ideia. Até muito recentemente… Foi então que percebi, nesse meu processo evolutivo, como essas crenças e atitudes - que parecem tão inofensivas, e até cuidadosas - estavam carregadas de perfeccionismo e apego. Foi como se uma luz se acendesse diante de mim! Sou muito atraída por livros de autoajuda (em suas várias formas) e não tenho vergonha de admitir isso. Aqueles que gosto tornam-se leitura recorrente e, muitas vezes, uso post its para marcar um trechos que gosto, ou os copio em um caderno. Tudo para não "estragar" o livro. E, foi durante uma dessas minhas releituras, que percebi que precisava de uma atitude real para cruzar a linha e romper com esse padrão. Precisava, deliberadamente, cometer um crime. Então, pela primeira vez na vida, usei um marca texto num livro. Peguei meu marca texto, olhei para o livro e respirei fundo, como fazem os médicos antes da primeira incisão de uma cirurgia (pelo menos é como vejo nas séries). Senti meu coração disparar e a adrenalina percorrer meu corpo. Contei o episódio pra minha mãe usando as seguintes palavras: "mãe, cometi um crime!", como quem precisa se confessar e ser absolvida. Esse foi o primeiro passo real para iniciar uma vida mais desapegada. No dia seguinte, consegui separar vários livros pra levar para um sebo ou doar. Às vezes, vejo alguns memes no Facebook sobre como cuidar de um livro sem ser um monstro, e então percebi que não sou a única. Mas para mim, esse é um comportamento limitante, um sinal de que estou guardando minha vida para um futuro incerto. Isso até me faz lembrar da minha avó paterna, que guardava tudo que ganhava - louças, roupas, perfumes - para uma ocasião especial a qual nunca chegou. Após sua morte, encontramos um monte de coisas velhas, sem nunca terem sido usadas. As marcas nos livros mostram que estes foram usados e cumpriram seus objetivos, assim como as marcas na vida, mostram que aproveitamos cada momento.

Desde que aprendi a ler, desenvolvi um caso de amor com os livros. Claro, inicialmente, eram aqueles livros infantis, mas me sentia particularmente atraída por aqueles que pareciam se de “gente grande”, ou seja, eram maiores e não tinham ilustrações.

Conforme fui crescendo, fui encontrando nos livros que lia minha principal companhia. Chegou um tempo em que livro nenhum era grande o suficiente para me entreter e, com certeza, eu não conseguia comprar livros na mesma velocidade que os lia.

Nem preciso dizer como amava visitar livrarias, né? Na época, era a melhor forma de conhecer as novidades e a melhor parte, eu podia tocar os livros, sentir a textura das capas e das folhas, sentir o cheiro da impressão… Aliás, gosto disso até hoje, e acho que meu ritual de leitura começa por esses outros sentidos, e não se restringe a visão.

Foi – e ainda é – através dos livros que aprendi grande parte do que sei hoje, e posso dizer que gosto de uma grande variedade de assuntos: romances (românticos, fantasia, policial), técnicos, desenvolvimento pessoal, espiritualistas e qualquer assunto que desperte meu interesse.

Acho que não é difícil de perceber que me tornei uma leitora um tanto quanto neurótica também, não é?

Lembro-me quando ganhei o box de quatro livros de “As Brumas de Avalon“, da Marion Zimmer Bradley. É uma edição do extinto Círculo do Livro, com capa dura e sobrecapa. Nessa época ia e voltava da escola usando ônibus e metrô, e tinha o péssimo hábito de ler nesse trajeto (esse hábito me rendeu vários graus de miopia que precisei operar mais tarde). Eu queria muito aproveitar esse tempo para ler meus novos livros, é claro! Mas tinha medo de estragar os exemplares colocando-os na mochila. Assim, pedi para minha mãe fazer uma capa de tecido, que fosse acolchoada (?!?!?!?!), para eu os colocar. E finalmente, pude ler minha coleção sem estragar nada.

Também nunca marquei uma página dobrando-a, ou risquei ou escrevi em livros, mesmo os técnicos ou de estudo (só aqueles de escola que a gente tinha que escrever e, mesmo assim, usava lápis, como se isso fosse um crime menor).

Essa minha paranóia com livros se manifestou também uma vez que um amigo me pediu emprestado (alerta de terror!) “O Alquimista“, do Paulo Coelho. Entrei em pânico só de imaginar o livro em outras mãos, e inventei uma mentira para não emprestar. Afinal, era melhor mentir descaradamente a emprestar um dos meu livros do Paulo Coelho! Ou qualquer outro que eu gostasse muito.

Isso tudo para dizer que eu fazia parte daquele grupo de pessoas que considera “crime” maltratar um livro, e tem um apego danado com eles, como se tivessem vida própria. E agia de acordo com essa ideia. Até muito recentemente…

Foi então que percebi, nesse meu processo evolutivo, como essas crenças e atitudes – que parecem tão inofensivas, e até cuidadosas – estavam carregadas de perfeccionismo e apego. Foi como se uma luz se acendesse diante de mim!

Sou muito atraída por livros de autoajuda (em suas várias formas) e não tenho vergonha de admitir isso. Aqueles que gosto tornam-se leitura recorrente e, muitas vezes, uso post its para marcar um trechos que gosto, ou os copio em um caderno. Tudo para não “estragar” o livro.

E, foi durante uma dessas minhas releituras, que percebi que precisava de uma atitude real para cruzar a linha e romper com esse padrão. Precisava, deliberadamente, cometer um crime. Então, pela primeira vez na vida, usei um marca texto num livro.

Peguei meu marca texto, olhei para o livro e respirei fundo, como fazem os médicos antes da primeira incisão de uma cirurgia (pelo menos é como vejo nas séries). Senti meu coração disparar e a adrenalina percorrer meu corpo. Mais tarde, contei o episódio para minha mãe usando as seguintes palavras: “mãe, cometi um crime!”, como quem precisa se confessar e ser absolvida.

Esse foi o primeiro passo real para iniciar uma vida mais desapegada. No dia seguinte, consegui separar vários livros pra levar para um sebo ou doar.

Às vezes, vejo alguns memes no Facebook sobre como cuidar de um livro sem ser um monstro, e então percebi que não sou a única. Mas para mim, esse é um comportamento limitante, um sinal de que estou guardando minha vida para um futuro incerto.

Isso até me faz lembrar da minha avó paterna, que guardava tudo que ganhava – louças, roupas, perfumes – para uma ocasião especial a qual nunca chegou. Após sua morte, encontramos um monte de coisas velhas, mas que nunca foram usadas.

As marcas nos livros mostram que esses foram usados e cumpriram seus objetivos, assim como as marcas na vida mostram que aproveitamos cada momento que vivemos.

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