Uma amizade incomum

Uma amizade incomum

Desde menina gosto de carros. Nunca entendi realmente sobre eles, mas desde pequena admirava os diversos modelos e escolhia qual eu ia ter quando crescesse (mal sabia eu como os designs e tecnologias teriam mudado quando, finalmente, pudesse ter o meu).

Lembro da alegria que eu sentia toda vez que meu pai trocava de carro. Para mim, era quase como noite de Natal, e eu ficava louca pra dar uma volta na novidade.

Quando fiz 18 anos, minha primeira atitude foi tirar minha CNH. Infelizmente, porém, somente muitos anos (muitos mesmo) depois fui dirigir de verdade. Eu não tinha carro e meu pai nunca me deixou dirigir o dele. A não ser durante o período que estava com dois carros, quando ele me deixou usar o “velhinho”.

Ah, mas pra mim isso já foi uma super realização. Eu já tinha habilitação, mas não tinha habilidade ainda, ou o que chamo hoje de “malícia de trânsito”. Mas também, até então não tinha medo, e por isso não hesitei em começar a ir para onde eu queria.

Até que um dia sofri um acidente na Marginal (uma via expressa aqui em São Paulo) e o carro sofreu perda total. Me senti como se tivesse perdido um amigo querido.

Fiquei quase dois anos sem dirigir, até que eu comprasse meu próprio carro. Nesse tempo, também, fiquei um pouco traumatizada e tinha medo, inclusive, de andar como carona com outras pessoas.

Mas, quando finalmente peguei meu carro… Foi amor à primeira vista! E tenho certeza que foi recíproco. Um carro semi-novo, pouco rodado, cheirinho de novo; acho que ficou guardado só esperando nosso encontro.

Voltei a dirigir, ainda sem a tal malícia e ainda traumatizada. Não tive ninguém pra me ajudar a superar essa fase inicial. Fazia coisas erradas (por falta de prática e pelo medo), era xingada no trânsito… às vezes um estranho me ajudava. Mas não desisti – minha vontade era maior que o medo – nem meu “amor”, ele foi paciente comigo. Parecia que o próprio carro compensava minhas besteiras.

Então, um dia me dei conta que já não era mais uma novata, eu apenas dirigia: eu fazia minha parte, e o carro a dele.

Esse processo de aprendizagem e cura de trauma me trouxe uma mega autoconfiança. Além de ter fortalecido umas das amizades que mais prezo. Sim, é possível existir uma amizade entre uma mulher e um carro, e se isso for coisa de louco, podem até me internar, mas levem meu carro junto!

Somos uma dupla única:  ele tem manias que só eu entendo, me ajuda nos momentos difíceis e até me ouve quando quero desabafar. E o melhor? Não julga.

Não importa como estou me sentindo, é só entrar no carro e dar a partida que me transformo, me sinto inteira. Só de olhar os “zoinhos de gato” dele (ele parece um gato preto zoiudo) meu coração transborda de amor, mesmo depois de anos juntos.

Essa história pode parecer estranha, mas é real. Estou escrevendo e estou chorando – de alegria, claro! – só de lembrar de cada experiência que tive com ele, e do valor dessas experiências. Meu pai me dizia que eu tinha que sentir o carro como uma extensão de mim mesma pra dirigir bem. Bom, não sei se dirijo tão bem assim, mas com certeza, sinto essa extensão.

Amizade, conexão, apoio, recompensa… tudo isso pode vir, literalmente, de onde menos se espera, desde que a gente esteja com a mente e o coração abertos. Meu carro não é uma posse de status, é meu amigo, meu companheiro (o Dean que o diga, né?).

Essa memória também é minha referência de como a paciência e o amor incondicional pode superar qualquer coisa e… me levar, literalmente, aonde eu quiser.

COMMENTS ( 2 )

  • Katy Fabruzzi

    Eu também sinto essa conexão com meu carro como parte da família. De um ano pra cá tenho um novo amor que me leva pra onde eu quero,rs

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