Uma reflexão sobre o medo sob o medo

Uma reflexão sobre o medo sob o medo

Escolhi escrever como forma de dar vazão a tudo que penso e sinto; como forma de elaborar tudo que aprendo seja sobre a vida ou simplesmente sobre mim mesma.

Mas essa é uma tarefa que está sendo bem mais difícil de cumprir do que eu poderia imaginar. Ao permitir que as palavras expressem o que existe no meu interior, também abro as portas para o medo se manifestar. Ou melhor, ele se manifesta antes mesmo de as palavras se formarem em minha mente.

E é exatamente isso que está acontecendo nesse exato agora. Em geral, escolho fazer qualquer outra coisa para evitar esse sentimento desconfortável, que faz o coração acelerar, gera um aperto no peito, um mal estar que não sei explicar e o pior, turva os pensamentos, me deixando completamente perdida, como se não fosse mais “dona de mim mesma”.

Sei que esses são os sintomas que anunciam um ataque de pânico, pois já tive mais de um e tenho que confessar, foi à partir dessa experiência que percebi que precisava mudar algo, e há mais ou menos três anos venho lidando com esse meu novo “amigo”.

Estranho chamar o medo de amigo, né? Mas o que o ataque de pânico me ensinou é que o fluxo da vida tem apenas um sentido, e isso não é negociável, não adianta a gente tentar resistir, mudar de direção, nada. Só nos cabe relaxar e gozar. Ops, exagerei no clichê? Mas é assim mesmo.

Hoje, ao contrário de outros momentos que me deparei com esses sintomas, resolvi escrever sob o efeito dos mesmos (não a respeito deles, mas SOB a influência deles, entende?), e ver o que eu poderia descobrir.

Num primeiro momento, foi uma catarse literária (será que posso chamar assim?), muitas palavras aparentemente sem sentindo, mas que me permitiam sentir o que estava acontecendo; podia sentir a ansiedade se transformando em medo, e esse no pânico. Mas enquanto escrevia, podia assistir esse fluxo correndo pelo caminho certo, se esvaindo e se diluindo na serenidade da compreensão.

Bem, é verdade que nem toda compreensão se transforma facilmente em palavras, muito menos em explicações. Mas, talvez, esse medo absurdo que me cerca deve ser do meu ego que só se alimenta de explicações racionais.

Existe um medo que nos protege, e ele é realmente útil no nosso dia-a-dia; tenho certeza que ninguém discorda disso. Mas esse outro medo, projetado por nosso ego manipulador, só nos limita, e ainda suga nossa autoconfiança. Afinal, é nosso ego quem tem medo de expor nossas fraquezas, imperfeições, vulnerabilidades (acho que estou assistindo muito aos vídeos da Gisela Vallin), porque ele é quem tem o ideal da perfeição.

Como já disse muitas vezes, para mim essa perfeição que tanto falam só existe por causa do julgamentos de valores da sociedade; essa mania de dividir tudo e todos entre bem ou mal, bom ou ruim.


Então, desde que permiti que o medo me acompanhasse no dia de hoje enquanto escrevia, comecei a recuperar minha paz interior, e agora até sinto um alívio gostoso!

E o que descobri com essa experiência? Bom, incialmente, minha ideia era escrever sobre o que aprendi com o ataque de pânico e desde que tive a ideia surgiu um bloqueio em mim. Quanto mais eu queria escrever, mais difícil era.

Olha o paradoxo aí! Se eu tinha aprendido mesmo, por que eu forçava, não é mesmo? Aparentemente eu tive que refazer a lição para entender e compreender, na prática. Não adianta forçar nada, nem pra acontecer, nem pra deixar de acontecer. É preciso identificar o fluxo da corrente e se jogar nela. Nesse caso, sentir o medo mesmo enquanto escrevia (ou escrever mesmo enquanto sentia medo… ).

Talvez essas palavras parecem não ter nenhum sentido lógico, mas seu real significado está numa dimensão onde as palavras em si não chegam, é preciso inspirá-las e deixar que elas nos inspirem.

Não posso dizer que matei meu medo hoje, até porque seria contrário ao tal do fluxo, mas consegui caminhar com ele. E só por isso, já me sinto vitoriosa.

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